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13/06/2005
30º aniversário do filme Tubarão... e nada para comemorar
Por Marcelo Szpilman*
No início desse mês de junho, o 30º aniversário do filme Tubarão (Jaws) foi comemorado com uma grande festa (Jaws Fest) em Amity Island, cidade que serviu de locação para o filme. Mais de 25 membros do elenco e da equipe de filmagem participaram do evento, que durou uma semana. Aproveitando a data, a Universal Studios lançou nessa festa um DVD comemorativo do 30º aniversário do filme.
Em 1975, o filme Tubarão foi lançado com enorme impacto na cultura popular e na industria do entretenimento. A mensagem "o tubarão é uma fera assassina" foi tão forte e penetrante que a fobia coletiva atingiu proporções nunca antes imaginadas. O filme Tubarão foi um "divisor de águas" e após sua estréia passou-se a odiar os tubarões e a desejar que todos fossem caçados e mortos. Notícias de capturas, associadas à idéia de "limpeza dos mares", passaram a ser anunciadas efusivamente.
Na verdade, tudo teve início na década de 1960, na Austrália. Uma série de ataques de tubarão-branco e incidentes nas águas costeiras australianas, em um curto intervalo de tempo, matou três megulhadores e promoveu essa falsa concepção de matador dos mares. Criou-se uma fobia que foi culminada, em 1974, pelo lançamento do livro “Jaws”, de Peter Benchley. Com o posterior lançamento, em 1975, do famoso filme Tubarão, de Steven Spielberg, baseado no livro, a fobia se espalhou pelo mundo afora. As duas produções queriam, e conseguiram com grande êxito, passar a distorcida idéia de que o tubarão-branco era um animal perverso e sanguinário e que tinha o homem como alvo principal.
A imagem da nadadeira dorsal, como uma foice, singrando as águas atrás da próxima e indefesa vítima humana, que inevitavelmente era abocanhada e mastigada pelas imensas mandíbulas abertas com os dentes triangulares aparentes, foi tão negativa que os tubarões-brancos passaram a ser considerados inimigos número 1 da sociedade. Foram perseguidos e caçados impiedosamente. Apesar de seu tamanho e força, milhares foram exterminados e a espécie não conseguiu absorver o golpe. Ao constatar que as populações estavam declinando rapidamente e caminhando para a ameaça de extinção, em 1979, a África do Sul, seguida posteriomente pelos EUA e Austrália, foi o primeiro país a proibir a pesca do tubarão-branco e instituir programas de proteção.
O próprio Peter Benchley, dizendo-se arrependido pelo estrago que provocou, anunciou que passaria a trabalhar em favor da preservação do tubarão-branco. Mas, ao participar ativamente como palestrante do Jaws Fest, dá sinais de que não é bem assim. Steven Spielberg, que felizmente não participa do evento, deveria doar parte do que ganhou com o filme para projetos de preservação de tubarões.
Trinta anos se passaram, tempo em que diversas pesquisas publicadas demonstraram que o tubarão-branco, com raras exceções, quando ataca o ser humano é devido a um erro de identificação, e essa injustificada má reputação não esmoreceu.
A ciência vem estudando os tubarões nos últimos anos para tentar entender melhor seu comportamento e o porquê dos raros ataques ao homem. Um dos objetivos principais é desmitificar e apagar a errônea imagem de “comedor de homens”, como a que foi imputada na década de 1970 ao tubarão-branco. Alguns pesquisadores estão tão convictos desse fato, que passaram a chamar de incidente e não mais de ataque. Estão convencidos de que não se trata do tubarão-branco predando o homem, mas sim do homem dividindo um pequeno espaço no oceano com os tubarões, justamente na hora errada. Apesar da irreal imagem assustadora que ainda hoje infundem os filmes sensacionalistas e a imprensa alarmista, a probabilidade de alguém ser atacado ao redor do planeta por um tubarão é quase desprezível, 1 chance em 300 milhões. É bem mais fácil ser atingido por um raio, 1 chance em 1 milhão.
Comemorar o quê? Que a presença do tubarão-branco no Oceano Atlântico foi reduzida em 79%? Que hoje estamos liqüidando 150 milhões de tubarões todos os anos ao redor do mundo? Que hoje já temos 40% das espécies de tubarões em risco de extinção?
A Jaws Fest me faz lembrar das iniciativas de comemoração da data de nascimento de Adolf Hitler. De extremo mal gosto, para mim, ambas as datas só serviriam, quando muito, para que a humanidade não esquecesse o quão deletério podemos ser quando acreditamos em uma idéia idiota e preconceituosa. Devemos sempre protestar contra movimentos estúpidos como esses.
Projeto Tubarões no Brasil
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Marcelo Szpilman, Biólogo Marinho formado pela UFRJ, com Pós-Graduação Executiva em Meio Ambiente (MBE) pela Coppe/UFRJ, é autor do livro Guia Aqualung de Peixes, editado em 1991, de sua versão ampliada em inglês Aqualung Guide To Fishes, editado em 1992, do livro Seres Marinhos, editado em 1998/99, do livro Peixes Marinhos do Brasil, editado em 2000/01, do livro Tubarões no Brasil, editado em 2004, e de várias matérias e artigos sobre a natureza, ecologia, evolução e fauna marinha publicados nos últimos anos em diversas revistas e jornais e no Informativo do Instituto. Atualmente, Marcelo Szpilman é diretor do Instituto Ecológico Aqualung, Editor e Redator do Informativo do citado Instituto, diretor do Projeto Tubarões no Brasil (Protuba) e membro da Comissão Científica Nacional (Cocien) da Confederação Brasileira de Pesca e Desportos Subaquáticos (CBPDS).
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