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06/04/2005
O peixe está acabando? Bote a culpa nas focas!
A matança de focas no Canadá
Foi aberta no final de março a temporada anual de caça às focas no Golfo de St. Lawrence, Canadá. O governo autorizou a matança de 320 mil focas, sendo a maioria filhotes, até o dia 15 de maio, quando se encerra a temporada. No entanto, grande parte é morta durante uma operação que dura cerca de 36 horas seguidas e envolve centenas de caçadores oportunistas, que vêem nessa atividade temporária uma excelente chance de ganhar dinheiro exclusivamente com a venda das peles desses animais.
Toda primavera, milhões de focas vêm para os bancos de gelo flutuantes na costa de Newfoundland, província do Canadá. Elas se reproduzem e têm seus filhotes nessas águas aparentemente tranqüilas. Infelizmente, para muitas focas, são águas violentas. A caça às focas é uma atividade que vem sendo praticada na costa de Newfoundland desde 1700. Os caçadores, que fazem dessa atividade sua fonte de sustento há gerações, aproveitam a carne, a pele e outras partes do animal. Infelizmente, algumas partes são vendidas secas para o mercado asiático que as utiliza, como de costume, para produzir seus pseudo-remédios afrodisíacos.
 | | Os bebês muitas vezes são mortos ainda junto das mães |
Esse é o segundo ano que o governo canadense permite a matança de tamanha cota (ano passado foram 300 mil). Os filhotes são muito visados e valorizados devido à sua pelagem branca, conservada até duas ou três semanas de idade. Os Estados Unidos e quase toda a Europa já proibiram a importação da pele de foca, mas esse negócio continua sendo muito rentável. A campanha Internacional pela Focas (ICS, na sigla em inglês) denuncia que Ottawa quer levantar a proibição de 15 anos de matança de filhotes de foca e estabelecer “zonas de exclusão de focas”, quando haveria então grandes áreas nos oceanos onde qualquer foca poderá ser exterminada. Outros grupos de defesa dos animais dizem que o governo está usando as focas como “bodes expiatórios” para encobrir sua má administração dos estoques pesqueiros.
A verdade é que em função de um desequilíbrio ambiental provocado pelo próprio homem — a drástica redução da população de ursos polares — a população de focas aumentou demasiadamente. Em conseqüência direta, o bacalhau do Atlântico Norte vem sendo consumido nos últimos anos pelas focas em números insustentáveis. Seriamente comprometida, a industria pesqueira do bacalhau vem pressionando o governo canadense a permitir a matança das focas no sentido de tentar equilibrar a cadeia alimentar da região, pois as populações desses peixes estão desaparecendo. As autoridades canadenses alegam que a iniciativa é justificável do ponto de vista ecológico e financeiro. A caça protegeria os estoques naturais de peixes e conservaria os empregos na Província de Newfoundland.
 | | A imagem dispensa comentários |
É mais um flagrante desrespeito às leis que regem o planeta. A natureza, quando seriamente atingida, sempre tende a voltar ao equilíbrio de suas forças. A redução dos ursos polares nos últimos anos, proporcionou na mesma intensidade, o aumento na população de focas. Como elas se alimentam de peixes, o bacalhau e outras espécies vêm sofrendo as conseqüências em seus estoques. Porém, a tentativa de corrigir esse problema eliminando do ambiente 300 mil indivíduos em tão pouco tempo, certamente provocará outro desequilíbrio, talvez ainda maior e com conseqüências imprevisíveis.
Independente dessa questão moral-econômica-ecológica, as imagens sangrentas dos caçadores matando bebês-focas, que correm o mundo, depõem contra qualquer argumento plausível a favor da matança das focas, um evento onde a crueldade é absolutamente desnecessária. Os animais são mortos a pauladas e muitos são escorchados ainda vivos. Assemelha-se bastante à matança dos tubarões para obtenção das barbatanas (finning). Gananciosamente, mata-se o animal para obter uma parte valiosa e muito rentável de seu corpo, descartando-se todo o resto.
Marcelo Szpilman, Biólogo Marinho formado pela UFRJ, com Pós-Graduação Executiva em Meio Ambiente (MBE) pela Coppe/UFRJ, é autor do livro Guia Aqualung de Peixes, editado em 1991, de sua versão ampliada em inglês Aqualung Guide To Fishes, editado em 1992, do livro Seres Marinhos, editado em 1998/99, do livro Peixes Marinhos do Brasil, editado em 2000/01, do livro Tubarões no Brasil, editado em 2004, e de várias matérias e artigos sobre a natureza, ecologia, evolução e fauna marinha publicados nos últimos anos em diversas revistas e jornais e no Informativo do Instituto. Atualmente, Marcelo Szpilman é diretor do Instituto Ecológico Aqualung, Editor e Redator do Informativo do citado Instituto, diretor do Projeto Tubarões no Brasil (Protuba) e membro da Comissão Científica Nacional (Cocien) da Confederação Brasileira de Pesca e Desportos Subaquáticos (CBPDS).
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