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16/10/2007
Fêmea grávida de tubarão-martelo morta a facadas. Quem são os verdadeiros assassinos dos mares?
No mundo, ocorrem 70 ataques de tubarão por ano, enquanto são mortos cerca de 150 milhões de tubarões
Por Marcelo Szpilman*
As cenas mostradas no noticiário local da RBS Notícias de Florianópolis nesse fim de semana, em que a barbárie dos pescadores contra um indefeso animal é acompanhada pelo público, me faz lembrar mais uma vez dos tempos da "escuridão", na Idade Média e da Inquisição, quando as execuções dos grandes vilões e pecadores eram em praça pública para "deleite" da platéia.
A chamada da notícia é a seguinte: "Ação cruel na praia da Capital. Uma fêmea grávida de tubarão martelo, espécie em extinção, é capturada e morta a facadas enquanto estava em trabalho de parto."
| | Assista à matéria da RBS na íntegra |
Mas por que os pescadores empregam tamanha crueldade contra um animal e a população pouco protesta? Simplesmente porque o animal em questão é um tubarão, e um tubarão está sempre acompanhado pelo falso estigma de "comedor de homens". E essa fama irreal de "assassino dos mares" faz com que o pescador veja a si mesmo como "Macho-herói-protetor" que mata a grande fera e recebe o apoio da população nessa insanidade. Será que se fossem cadelas ou gatas grávidas haveria mais repúdio?
Nesses momentos, costuma-se discutir inutilmente se são ou não tubarões agressivos. Mas será que já não está na hora de percebermos que todos os animais, independente de seu potencial de ameaça aos seres humanos, merecem respeito e devem ser protegidos da ação predatória e inconseqüente do homem? E olha que o litoral de Santa Catarina está praticamente livre de ameaças de ataque de tubarão (nos últimos 86 anos somente um ataque foi registrado em todo o estado, e não foi de tubarão-martelo).
O mais importante é perceber o que estamos fazendo com os tubarões em nossa costa e identificar o grau de ameaça a que eles estão expostos. A população do tubarão-martelo caiu em 90% nos últimos 20 anos. O agravante nesse caso é que se tratava de uma fêmea grávida e que abortou seus filhotes (atitude comum em caso de forte estresse). Acrescente-se a isso o fato de que essa fêmea, que só se reproduz uma vez a cada dois anos, levou cerca de 12 anos para atingir sua maturidade sexual. Como são espécies ameaçadas de extinção, uma fêmea grávida representa uma grande perda para sua fragilizada população.
Já está na hora de juntar esforços que assegurem a sustentabilidade da pesca dos tubarões. Necessitamos de uma verdadeira legislação de proteção que efetivamente venha a cercear a pesca predatória e a sobrepesca das espécies de tubarões, de modo a reprimir os atos conseqüentes e inconseqüentes dos pescadores comerciais, artesanais ou industriais. Precisamos de limites (ou cotas) para a quantidade de tubarões pescados, proteção de áreas de berçário e épocas de defeso.
Ocorrem no máximo 70 ataques de tubarão por ano no mundo todo. Estatísticas da FAO (Food and Agriculture Organization da Organização das Nações Unidas) estimam que 100 a 150 milhões de tubarões sejam capturados e mortos anualmente em todos os oceanos. Quem são os verdadeiros assassinos dos mares?
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Marcelo Szpilman, Biólogo Marinho formado pela UFRJ, com Pós-Graduação Executiva em Meio Ambiente (MBE) pela Coppe/UFRJ, é autor do livro Guia Aqualung de Peixes, editado em 1991, de sua versão ampliada em inglês Aqualung Guide To Fishes, editado em 1992, do livro Seres Marinhos, editado em 1998/99, do livro Peixes Marinhos do Brasil, editado em 2000/01, do livro Tubarões no Brasil, editado em 2004, e de várias matérias e artigos sobre a natureza, ecologia, evolução e fauna marinha publicados nos últimos anos em diversas revistas e jornais e no Informativo do Instituto. Atualmente, Marcelo Szpilman é diretor do Instituto Ecológico Aqualung, Editor e Redator do Informativo do citado Instituto, diretor do Projeto Tubarões no Brasil (Protuba) e membro da Comissão Científica Nacional (Cocien) da Confederação Brasileira de Pesca e Desportos Subaquáticos (CBPDS).
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