MARCELO SZPILMAN

Marcelo Szpilman 28/03/2007
Nota de repúdio: rede de proteção antitubarão em Recife. Voltamos no tempo?

A recente notícia de que uma rede de proteção contra tubarão foi instalada em Tamandaré (PE) para ser testada e posteriormente instalada na praia de Boa Viagem, em Recife, ainda esse ano, merece todo o nosso repúdio e protesto.

A Notícia:
O Instituto Praia Segura instalou no último dia 23, em um trecho da Praia de Tamandaré, no litoral sul de Pernambuco, uma tela de proteção contra ataques de tubarão. O equipamento está em fase de teste e deve ser colocado no segundo semestre na Praia de Boa Viagem. A rede terá 450 metros de extensão e altura de cinco metros.

Em 2004, no Workshop Internacional de Ataques de Tubarões, realizado em Recife, os integrantes do então Projeto Praia Segura, que reunia surfistas e vítimas de ataque, pressionavam a todos por uma medida imediata para solucionar o problema dos ataques, incluindo a adoção de redes para capturar os tubarões. Naquela época, foi lhes dito que infelizmente, quando se trata da natureza, uma solução imediata e confiável não existe. A adoção de redes de proteção foi, de forma bastante contundente, desaconselhada por todos os especialistas presentes, incluindo os congêneres locais e os representantes da África do Sul e da Austrália, em cujos países tal medida foi adotada na época em que valia o antigo conceito de que "tubarão bom, é tubarão morto". Todos os especialistas destacaram as redes de proteção como antiqüadas e contraproducentes, devido ao forte impacto ambiental que elas provocam. A recomendação unânime dos especialistas foi dar ênfase nas campanhas de educação e conscientização da população, com foco nos jovens e na parcela mais carente e com acesso restrito aos meios de comunicação, já que à ela pertence boa parte das vítimas de ataque.

A instalação de redes de proteção antitubarão em Recife será uma reação absolutamente excessiva e antiecológica, pois essas redes matarão, além dos tubarões, uma quantidade muito maior de peixes, golfinhos, tartarugas e outros animais marinhos absolutamente inocentes. As pessoas, sejam vítimas ou não dos ataques, precisam aprender a conviver com os tubarões e entender que os ocasionais (e acidentais) ataques são fruto de uma anterior interferência humana no ecossistema de Recife e adjacências. Essa nova interferência, com a utilização de medidas ultrapassadas, com certeza, será também desastrosa para ambiente marinho local.

As redes de proteção, ao contrário do que pode parecer, não protegem ninguém. Elas servem tão somente para matar os tubarões que por ventura fiquem presos em suas malhas. Podemos até entender as motivações do Instituto Praia Segura, mas não aceitar que a solução do problema seja matar tubarões, peixes, tartarugas e golfinhos para dar uma falsa sensação de segurança.

Esperamos e contamos com a reação dos órgãos competentes do poder público para deter mais essa aberração contra a natureza.

Marcelo Szpilman, Biólogo Marinho formado pela UFRJ, com Pós-Graduação Executiva em Meio Ambiente (MBE) pela Coppe/UFRJ, é autor do livro Guia Aqualung de Peixes, editado em 1991, de sua versão ampliada em inglês Aqualung Guide To Fishes, editado em 1992, do livro Seres Marinhos, editado em 1998/99, do livro Peixes Marinhos do Brasil, editado em 2000/01, do livro Tubarões no Brasil, editado em 2004, e de várias matérias e artigos sobre a natureza, ecologia, evolução e fauna marinha publicados nos últimos anos em diversas revistas e jornais e no Informativo do Instituto. Atualmente, Marcelo Szpilman é diretor do Instituto Ecológico Aqualung, Editor e Redator do Informativo do citado Instituto, diretor do Projeto Tubarões no Brasil (Protuba) e membro da Comissão Científica Nacional (Cocien) da Confederação Brasileira de Pesca e Desportos Subaquáticos (CBPDS).


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